Escrever é sentir. Escrever é exprimir. Escrever é perceber. Escrever é explorar. Escrever é amar. Escrever é sonhar. Escrever é querer. Escrever é chorar. Escrever é rir. Escrever é conquistar. Escrever é falar. Escrever é pensar. Escrever é admitir. Escrever é uma viagem ao inconsciente.
Estava eu sentada na terceira mesa à frente da secretária da Professora Maria de Lurdes Paixão, a beber cada palavra que ela dizia sobre o inconsciente, os sonhos, o recalcamento e a psicanálise. Foi a primeira aula de psicologia que achei realmente interessante, já que as outras não passaram de ouvir colegas a falar uma língua semelhante com o «Português».
Eu não sabia que todos os sonhos faziam sentido, tinham uma razão… Mesmo aqueles que não têm sentido absolutamente nenhum – para o nosso consciente, claro. Mas têm. O nosso inconsciente é o nosso verdadeiro «Eu». Existe uma coisa com o nome absurdo: Superego. Esta coisa não nos deixa dizer tudo, tudo, tudo o que pensamos/sentimos, exactamente porque nos faz pensar. Pensamos que não fica bem dizer isto ou aquilo, porque a pessoa a quem nos estivéssemos a dirigir não iria gostar. Pensamos em frases não-pronunciadas, porque nos parecem ridículas, sem sentido. Pensamos que não podemos desrespeitar este ou aquele, porque a boa ética o diz. Pensamos que não podemos esbofetear um amigo, mesmo que seja a ser a pessoa mais imbecil, porque o código da amizade perfeita e «para sempre» o diz. Tretas. São tudo tretas, estas coisas do politicamente correcto. Mas voltando aos sonhos: quando estamos a dormir, o nosso consciente está «desligado», portanto, se sonhamos, é o nosso inconsciente a trabalhar, por outro lado, se fosse apenas uma manifestação do inconsciente, sonhávamos com o que tínhamos tentado recalcar. Estes sonhos não se podem confundir com o que chamamos de «sonhar acordado», pois nessas situações controlamos o nosso pensamento, não vem do inconsciente porque reprimimos o que não queremos ter/mostrar/sentir.

Cá para mim, na minha descoberta estupidamente consciente. Eu desconfio que encontro o meu inconsciente sempre que bebo um bocadito mais que a conta. Ou talvez não… digo o que quero dizer, sim, mas também recalco muitas coisinhas feias.
Outra coisa que me lembrei agora: actos falhados. Para quem não sabe, na psicanálise, es
ta é a designação para situações em que queremos dizer uma coisa, e dizemos outra. (“Podia-me dar uma queca?” – quando se quer dizer: “Podia-me dar um queque?”. A senhora que disse isto tinha o marido fora há três meses); é o mesmo que querer pedir um «Nestea de Limão» e pedir «Um Nestea de Ice Tea»;
Outra coisa que a aula confirmou, foi a minha resposta ao «porquê» escrever. Sei que respondi qualquer coisa do género: escrever ajuda a perceber o que sentes. E não é verdade? Se eu tivesse de escolher textos meus seriam aqueles que escrevo quando estou triste, chateada, revoltada, ou extremamente feliz – porque esses são os que fazem sentido para mim: ajudam-me a perceber-me. Falou-se ainda nos livros de J.K. Rowling. É, ou não é verdade que quem os leu não se encontrou lá? Quando se segue uma saga tão inteligente como aquela, entra-se num mundo nosso – com imagens diferentes de todos os outros leitores. É igualmente verdade que ela conseguiu pôr milhares e milhares de crianças a ler – crianças de uma geração tecnologia, sem interesse por livros.
Deixa-me praticar psicanálise em ti, por favor.