sábado, 10 de maio de 2008

Se me olhasses assim outra vez..

Calou-se; mas os seus belos olhos ficaram um instante pousados nos de Carlos, como esquecidos, e deixando fugir irresistivelmente um pouco do segredo que ela retinha no seu coração.
Ele murmurou:
- Por mais que eu fizesse, ficaria bem pago de tudo se me olhasse outra vez assim.
Uma onda de sangue cobriu toda a face de Maria Eduarda.
- Não diga isso…
- E que necessidade há que eu lho diga? Pois não sabe perfeitamente que a adoro, que a adoro, que a adoro!
Ela ergueu-se bruscamente, ele também – e assim ficaram, mudos, cheios de ansiedade, trespassando-se com os olhos, como se se tivesse feito uma grande alteração no Universo, e ele esperassem, suspensos, o desfecho supremo dos seus destinos… E foi ela que falou, a custo, quase desfalecida, estendendo para ele, como se o quisesse afastar, as mãos inquietas e trémulas:
- Escute! Sabe bem o que eu sinto por si, mas escute… Antes que seja tarde, há uma coisa que lhe quero dizer…
Carlos via-a assim tremer, via-a toda pálida… E nem a escutara, nem a compreendera. Sentia apenas, num deslumbramento, que o amor comprimido até aí no seu coração irrompera por fim, triunfante, e embatendo no coração dela, através do aparente mármore do seu peito, fizera de lá ressaltar uma chama igual… Só via que ela tremia, só via que ela o amava… E, com a gravidade forte de um acto de posse, tomou-lhe lentamente as mãos, que ela lhe abandonou submissa de repente, já sem forças, e vencida. E beijava-lhas ora uma, ora outra, e as palmas, e dos dedos, devagar, murmurando apenas:
- Meu amor! Meu amor! Meu amor!
Maria Eduarda caíra pouco a pouco sobre a cadeira; e, sem tirar as mãos, erguendo para ele os olhos cheios de paixão, enevoados de lágrimas, balbuciou ainda, debilmente, numa derradeira suplicação:
- Há uma coisa que eu lhe queria dizer!...
Carlos estava já ajoelhado aos seus pés.
- Eu sei o que é! – exclamou, ardentemente, junto do rosto dela, sem a deixar falar mais, certo de que adivinhara o seu pensamento. – Escusa de dizer, sei perfeitamente. É o que eu tenho pensado tantas vezes! É que um amor como o nosso não pode viver nas condições em que vivem outros amores vulgares… É que desde que eu lhe digo que a amo, é como lhe pedisse para ser minha esposa diante de Deus…
Ela recuava o rosto, olhando-o angustiosamente, e como se não compreendesse. E Carlos continuava mais baixo, com as mão dela presas, penetrando-a toda da emoção que o fazia tremer:
(…) Depois houvera um olhar; e agora deviam fugir ambos, e ela tornara-se o cuidado supremo da sua vida, a esposa secreta do seu coração. (…) Ela então atravessou a sala, veio para Carlos, que a esperava no sofá, com os braços estendidos. E era como se obedecesse só ao impulso da sua ternura, calmadas já todas as incertezas. Mas hesitou de novo diante daquela paixão, tão pronta a apoderar-se de todo o seu ser, e murmurou, quase triste:
- Mas conhece-me tão pouco!... Conhece-me pouco, para irmos assim ambos, quebrando por tudo, criar um destino que é irreparável…
Carlos tomou-lhe as mãos, fazendo-a sentar ao seu lado, brandamente:
- O bastante para a adorar acima de tudo, e sem querer mais nada na vida!
Um instante Maria Eduarda ficou pensativa, como recolhida no fundo do seu coração, escutando-lhe as derradeiras agitações. Depois soltou um longo suspiro.
- Pois seja assim! Seja assim… Havia uma coisa que eu lhe queria dizer, mas não importa… É melhor assim!...
E que outra coisa podiam fazer? – perguntava Carlos, radiante. Era a única solução digna, séria… E nada os podia embaraçar; amavam-se, confiavam absolutamente um no outro; ele era rico, o mundo era largo…
E ela repetia, mais firma agora, já decidida, e como se aquela resolução a casa momento se cravasse mais fundo na sua alma, penetrando-a toda e para sempre:
- Pois seja assim! É melhor assim!
Um momento ficaram calados, olhando-se arrebatadamente.
- Diz-me ao menos que és feliz – murmurou Carlos.
Ela lançou-lhe os braços ao pescoço: e os seus lábios uniram-se num beijo profundo, infinito, quase imaterial, pelo seu êxtase.

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